Chupeta um mal necessário?

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As crianças nascem com reflexos adaptativos (busca, sucção e deglutição) que as auxiliam a sobreviver. A sucção se inicia entre a 17ª e a 24ª semanas de vida intrauterina. Desta forma, é possível observar bebês sugando os dedos ainda no ventre das mães.  

            O recém-nascido mama porque tem fome, e isso lhe proporciona prazer na medida em que sua fome é saciada. A amamentação em regime de livre demanda satisfaz tanto suas necessidades nutritivas quanto a busca do prazer.

            Os reflexos adaptativos, entretanto, começam a mudar nos primeiros meses de vida, transformando-se em um hábito; mesmo na ausência de fome, o bebê procura sugar, levando tudo o que lhe interessa à boca apenas em busca de satisfação emocional.

            É sabido que os organismos tendem a repetir respostas que levam a um resultado positivo e a não repetir as que levam a um resultado neutro ou negativo.   Assim, sugar é uma resposta a ser repetida, na medida em que reduz as angústias. A repetição de um determinado comportamento torna-o inconsciente e constitui-se em hábito.

            Portanto, se no começo da vida o bebê mama porque tem fome, depois, mesmo na ausência da fome, ele procura sugar só pela busca do prazer, e isso reduz suas angústias e estresse. Uma vez estabelecido, o hábito de SNN pode se prolongar, estendendo-se até a fase seguinte de desenvolvimento.

            Teoricamente, não existe consenso a respeito dos benefícios e malefícios da chupeta. Geralmente é contraindicada não apenas por prejudicar o estabelecimento da amamentação, mas também pelo fato de postergar a mamada, ao ser empregada para acalmar a criança, que, na realidade, está faminta, favorecendo o desmame. Afinal, quanto menos a criança suga o seio materno, menor é o estímulo à produção de leite.

            Além disso fonoaudiólogos enfatizam que seu uso de forma inadequada, também tem impacto negativo sobre o desenvolvimento da fala, pois à medida que ocupa a cavidade oral, limita o balbucio, a imitação de sons e a emissão de palavras, levando a uma vocalização distorcida.

            Alguns pediatras por outro lado, também alertam para os problemas respiratórios, já que a chupeta induz à respiração oral (pela boca), levando a uma expiração prolongada (o que reduz a frequência respiratória), diminuindo o espaço aéreo dos seios da face (o que provoca desvio de septo), diminuindo a produção de saliva, entre outras consequências.

            Entretanto, existem aspectos enfatizados principalmente pelos pais para justificar o mal necessário, como: a chupeta acalma um bebê, alivia a dor, diminui a ansiedade e conforta o filho quando está cansado, triste ou frustrado, previne o hábito de sucção dos dedos, e assim por diante.

            De qualquer forma é preciso questionar por que a família acha interessante trocar a fralda pela cueca e não acha interessante trocar a mamadeira pelo copinho e a retirar a chupeta.

            É importante, portanto, compreender o significado da chupeta também para os pais. Muitos se acomodam diante das consequências da retirada e preferem manter a chupeta como um mal necessário. Outros, não conseguem manter a posição firme e acabam por voltar atrás. Não conseguem não ceder à sedução da criança.

            O que é preciso compreender é que, após 3 anos de idade a criança não tem mais necessidade de sucção e, portanto, pode-se começar a pensar na sua retirada, se é que a criança não desistiu da chupeta por vontade própria.

            O tempo voa e chega a hora de retirar a chupeta, o que precisa acontecer de forma gradual.

            É preciso considerar a personalidade da criança, o que ela está vivendo, como por exemplo, a chegada de um irmão, a separação dos pais, mudanças de escola, etc.

            Por ser uma grande novidade, é importante que seja a ÚNICA, que a criança esteja vivendo.

            O mais interessante é saber que toda mudança tem que ser aos pouquinhos. A retirada imediata pode causar um estresse desnecessário e, por isso, o mais indicado é ir aos poucos.

            Assim seguem algumas dicas:

  1. Limite o horário de uso como por exemplo restringindo o uso apenas a hora de dormir;
  2. Não pendure a chupeta em nenhum lugar, como no carrinho, nas roupas, etc.
  3. Inicie o café da manhã sentados `a mesa o que gera a sensação de maturidade evitando que a chupeta venha a ser substituída pela mamadeira;
  4. Não marque data, pois pode gerar ansiedade para a criança;
  5. Não prometa presentes. Essa é uma etapa como todas as outras a serem superadas. É natural do processo de desenvolvimento.
  6. Resista todas as vezes que a criança tentar voltar atrás nos combinados, como por exemplo, o de não usar a chupeta durante o dia;
  7. Não compre chupetas novas;
  8. Ocupe as mãos da criança para evitar que chupe os dedos;
  9. Não use frases para convencer a criança, do tipo: “usar chupeta é feio”; “mamadeira é coisa de bebê”. Se precisar se referir a isso, opte sempre para o lado positivo, mostrando quanto é bacana crescer e alcançar novas conquistas e aprendizados;
  10. Verifique se na escola outras crianças estão no mesmo processo da retirada da chupeta. Outras crianças podem servir de exemplo;
  11. Evite a mentira: esqueci a chupeta, o gato comeu, o papai Noel a pediu. A criança precisa participar do processo de separação;
  12. Distraia a criança com outros estímulos;
  13. Não ignore a fala da criança. Escute suas solicitações diante do desejo de chupara chupeta, mas relembre os combinados e não volte atrás;

            É preciso levar a criança a lidar com a perda da chupeta. Afinal é um luto por uma fase prazerosa que a criança passou. Vivenciar essa frustração é alicerce para enfrentar outras perdas naturais do processo de desenvolvimento.

            Tente lembrar de suas próprias perdas. Ficar sem algo que lhe oferece segurança e conforto não é fácil. Assim, introduza brincadeiras, mais afetos no contato, para que possam sentir sensações similares às proporcionadas pela chupeta.

            E finalmente reconheça que um dia foi um mal necessário, introduzido pelo contexto familiar. Portanto, a paciência é algo que não pode ser retirada!

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mateus saldanha
3 anos atrás

muito bom seu site gostei muito do seu conteúdo.Vou passar mais vezes para ver as atualizações.abraço para vcs.

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